Anelisa

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Anelisa ainda chorava quando o táxi arrancou. Da calçada, Roger jurava distinguir as lágrimas esmagadas pelos pneus. Tão atordoado estava o infeliz que mal se deu conta da garoa. Deixou-se ficar, os olhos quebrados a fitar o asfalto, a bochecha ainda ardida; não que ele tivesse mais o que fazer agora. Sozinho, arrependido, cabeça e ombros largados. As lágrimas foram arrastadas à sarjeta. Roger sacou o celular do bolso; a tela teimava em reconhecer os toques dos dedos enrugados.

Homens não são as criaturas mais inteligentes da Terra, ainda mais ao lidar com mulheres. E existe prova maior do quanto Deus é um tremendo sacana? O Homem, desbravador de mistérios, até hoje incapaz de compreender a Mulher. Quiçá Deus seja mesmo Deusa; sem dúvida, isso explicaria o universo de contradições em torno Dele, ou Dela. É claro que Roger nunca deu a mínima pra Deus, tampouco desbravou mais do que bares e bocas de fumo. Ele era um poeta marginal, só mais um bocó de vontades simples. Agora, tudo o que ele queria era discar o maldito número de Anelisa.

Roger se arrastou para a ruína que era o saguão do teatro. Precisava enxugar as mãos e a tela do celular, mas o lugar não tinha nada a oferecer. Em tempos áureos, o porteiro talvez lhe cedesse um lenço, a garçonete buscasse um guardanapo, ele próprio apanhasse o papel-toalha no W. C. dos Cavalheiros. Pensando melhor, nesse passado remoto a presença de um tipo como Roger, viciado ou não, sequer seria permitida. Fosse como fosse, o celular era indiferente aos toques de dedos murchos.

Na tela molhada, Anelisa o encarava por detrás de óculos de sol, os lábios num sorriso zombeteiro. Roger sorriu de volta; sentou na base da escada arruinada que daria para os camarotes, se ainda existisse algo lá em cima. Aquela foto era de dois anos atrás: o cabelo dela ainda flamejava em rosa vivo, as bochechas estavam coradas, e, no narizinho curto, aquele saudoso piercing. O que Roger mais adorava naquela foto era o sorriso de Anelisa. Agora ela não sorria mais.

Roger pensava ser ele a razão, mas Roger era um ingênuo: a viagem à praia, os poemas apaixonados, a fotografia à beira mar, as farras desvairadas; o que mais ele poderia esperar da vida? Já Anelisa achava que aqueles eram dias incríveis demais pra se compartilhar com uma só pessoa. Espírito livre, ela tardou a entender as consequências da liberdade total. Por dois anos, perdido na espiral de álcool, drogas e sexo, o simplório e incauto Roger seguiu amando Anelisa.

Ele desistiu do celular. Cabisbaixo, abrigou-se entre as pernas, fungou, passou uma mão no rosto; o sangue tinha coagulado. Não era a primeira briga deles, não seria a última. Talvez um poema a ajudasse a repensar sua decisão, mas para isso precisava de inspiração. Ele quis cheirar e uma lembrança invadiu sua mente. Olhou em volta e, no pé da escada, Roger viu: o saquinho atirado contra ele durante a briga ainda estava ali. Era maconha, não pó. Melhor que nada.

Fuçou o bolso esquerdo com vagar e topou com a seda encharcada. Perto dos tijolos destroçados do balcão, ele resgatou um panfleto; jogou um pouco da erva sobre a chamada que prometia a volta da pessoa amada em até três dias. Anelisa voltaria pra ele, Roger sabia, achava que sim; não é? Levou o cigarro aos lábios. Ela sorriria de novo. Resolveriam o problema, juntos. Tateou o bolso direito. Tudo seria como aqueles dias de gandaia na praia, os melhores de suas vidas. Porque ele a amava, e ela o amava de volta. Amava, não amava? Ele cuspiu o cigarro e um “filadaputa”! Anelisa tinha levado o isqueiro.

Nota do Autor: este é um dos 4 contos originalmente publicados na antologia Onisciente Contemporâneo.

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